Desvalorização de carros: 7 dogmas do mercado brasileiro, leia e veja se você concorda…

O consumidor segue alguns preceitos que ninguém sabe ao certo de onde surgiram e que, muitas vezes, nem fazem sentido do ponto de vista técnico

O mercado brasileiro tem alguns dogmas. São “regras” que ninguém sabe ao certo de onde surgiram e que, muitas vezes, nem fazem sentido do ponto de vista técnico, mas que acabam ditando o comportamento dos consumidores. Temendo, entre outras coisas, que seus carros sofram desvalorização acentuada, os compradores simplesmente seguem tais mandamentos.

O curioso é que, muitas vezes, carros fora desses padrões realmente acabam sendo rejeitados pelo mercado e, consequentemente, têm maior desvalorização. É o famoso paradoxo Tostines: vende mais porque é mais fresquinho ou é mais fresquinho porque vende mais?

Seja lá qual for a resposta, o AutoPapo listou 7 desses preceitos do mercado brasileiro de veículos. Também procuramos identificar a origem desses preceitos e apontar possíveis causas para a aceitação deles. Confira o listão!

1. Carros “coloridos” sofrem com a desvalorização

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Quem é um pouco mais velho deve se lembrar que, há não muito tempo, as ruas do país eram bem mais coloridas. Até os anos 90, era comum ver carros vermelhos, dourados e em diferentes tons de azul circulando por aí. Na virada do século, por algum motivo, a coisa mudou. Desde então, proliferaram os veículos pintados de preto, prata e cinza. Mais recentemente, o branco também entrou na moda.

É muito difícil entender de onde veio essa regra e como ela ganhou tanta força no mercado. Mas o resultado é que, hoje, carros fora do padrão preto e branco realmente tendem a desvalorizar mais. Situação quase oposta à de poucas décadas atrás, quando ninguém tinha dificuldade para revender um Monza cor-de-vinho ou um Fusca amarelinho-manteiga.

2. Carros de duas portas são mais sujeitos à desvalorização

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É inegável que automóveis com quatro portas são mais práticos. Quem roda constantemente com passageiros no banco traseiro ou precisa transportar crianças em cadeirinhas sabe muito bem disso. Porém, também é verdade que nem todos os consumidores têm essas necessidades: pessoas solteiras ou casais sem filhos são muito bem-atendidos por modelos de duas portas.

O caso é que mesmo esses perfis de compradores optam por carros de quatro portas, temendo que, do contrário, sejam penalizados pela desvalorização. Tanto é assim que, no Brasil, sequer são mais fabricados veículos com duas portas. Devido à baixa demanda, esse tipo de carroceria deixou de ser oferecida em Volkswagen up!, Fox e Gol, Fiat Uno e Ford Ka.

Em outros países é diferente: os carros de quatro portas são maioria, mas não únicos. Já o consumidor brasileiro parece não gostar de diversidade de carrocerias. Tanto que, décadas atrás, a situação era oposta: todos só queriam saber de veículos com duas portas. Chegava-se ao cúmulo de ver cupês sendo utilizados como táxis ou entregues a motoristas particulares: os passageiros que se contorcessem para acessar o banco traseiro.

3. Picapes grandes devem ser equipadas com motor a diesel

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Chevrolet S10 diesel 2018

Motores de alta cilindrada movidos a gasolina ou a etanol tendem a ter grande consumo. Por isso, em picapes e em SUVs de maior porte, o mercado dá preferência ao uso de diesel. Até aí, tudo parece fazer sentido. A questão é que existem outras variáveis que influenciam nessa equação de custos.

Para começar, uma veículo a diesel custa bem mais que um similar com mecânica a centelha. Uma Chevrolet S10 LT 2.5 flex 4×4, por exemplo, tem preço sugerido de R$ 131.190. Essa quantia sobre para R$ 168.690 na versão LT 2.8 turbodiesel 4×4. No caso de uma Toyota Hilux SRV 4×4, os valores são de R$ 146.990 com o motor 2.7 flex e de R$ 188.990 com o 2.8 turbodiesel. Nas duas picapes, a diferença chega a 28,6%.

Portanto, apenas para compensar o custo extra com a aquisição, o motorista precisará rodar centenas de milhares de quilômetros. Há quem diga que compensa, justamente porque carros utilitários a diesel, em tese, tendem a apresentar menor desvalorização. Porém, há de se considerar ainda outros gastos. Em razão do preço maior, os valores gastos com IPVA e seguro também serão mais elevados.

Por fim, revisões e outras manutenções em veículos a diesel tendem a ser mais caras que em modelos flex. Tudo isso colocado na balança, chega-se à conclusão que o motor sem centelha só vale a pena, do ponto de vista econômico, para quem realmente os utilizará por grandes quilometragens. E esse não é o caso de boa parte dos compradores de picapes e SUVs.

4. Carros franceses têm maior desvalorização

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Cada fabricante de automóveis desenvolve os próprios projetos e aplica princípios distintos à manufatura. Ford e Chevrolet, por exemplo, são estadunidenses, mas nem por isso o consumidor vê semelhanças entre os produtos de ambas. No caso dos carros franceses, porém, a lógica é outra, ao menos aos olhos do mercado brasileiro. Por aqui, eles ganharam fama de ter revenda difícil, independentemente da marca ou do modelo.

Essa rejeição parece ter surgido nos anos 90, quando ocorreu a abertura do mercado às importações. Na época, alguns modelos não foram bem-adaptados às condições de rodagem do país e sofreram, em especial, danos nos conjuntos de suspensão. Esses problemas ocorreram também com veículos de outras nacionalidades, como os coreanos. Contudo, enquanto esses conseguiram romper tal barreira, os franceses ficaram rotulados.

As empresas há tempos buscam soluções para superar esses estigmas. A Renault parece estar conseguindo: produtos como Sandero, Logan e Duster têm boa aceitação. Todavia, os carros do Grupo PSA, que controla Peugeot e Citroën ainda sofrem com rejeição e consequente desvalorização. Curioso notar que isso não acontece em todos os mercados: na vizinha Argentina, por exemplo, os veículos franceses têm fama de robustez e liquidez.

5. Carros sem proposta popular precisam ter câmbio automático

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O câmbio automático é o novo queridinho do mercado. Neste ano, pela primeira vez, as vendas de carros zero-quilômetro com esse equipamento devem superar as dos similares com transmissão manual. Por isso, não chega a surpreender que tal item tenha constituído um novo dogma para os consumidores.

A própria indústria já identificou o surgimento desse preceito. Durante o lançamento da versão HGT do Cronos, um representante da Fiat afirmou que o câmbio automático seria o único oferecido porque, em automóveis com preço acima de R$ 60 mil, não há demanda por outro tipo de transmissão. As linhas Cronos e Argo, inclusive, não têm mais opção de caixa de marchas manual quando equipados com motor 1.8, devido à baixa procura.

Não que haja problema com câmbio automático em si. Pelo contrário: no trânsito urbano, em especial, ele proporciona grande comodidade. O caso é que é bom ter opção. Existem consumidores que apreciam a interação com uma boa transmissão manual, mas deixam de comprá-la por temer maior desvalorização dos próprios carros. Ou por impossibilidade mesmo, já que o pedal de embreagem já foi extinto de vários segmentos de automóveis.

6. Carros com motores de 16 válvulas têm manutenção mais cara

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Durante muito tempo, parte dos consumidores fugia dos motores de 16 válvulas. A justificativa recaía sobre uma suposta dificuldade para fazer a manutenção. Havia até um infundado temor sobre menor durabilidade. O resultado era rejeição mercadológica e consequente desvalorização dos carros com essa tecnologia.

Com o tempo, as 16 válvulas foram se tornando comuns, o que tem causado a desconstrução dos mitos. Porém, algumas pessoas ainda torcem o nariz para tal tipo de motor. Menos se eles estiverem sob o capô de um Toyota Corolla ou de um Honda Civic: afinal desde que chegaram ao Brasil, esses dois sedãs são equipados com motores multiválvulas. Um baita paradoxo, já que ambos têm fama de robustez no mercado.

7. Carros 1.0, só se forem populares?

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Até pouco tempo atrás, motor 1.0 era exclusividade dos carros populares. Nos últimos anos, ele passou a equipar modelos de outros segmentos. Isso, graças à tecnologia: recursos como turbocompressor e injeção direta fazem motores de pequena capacidade cúbica desenvolverem valores de potência e torque similares aos de unidades 1.8 ou 2.0 de aspiração natural.

Todavia, uma parcela significativa de consumidores ainda associa os motores 1.0 a automóveis de entrada, com baixo desempenho. Já há até quem levante suspeitas sobre a durabilidade desses propulsores turbo de baixa cilindrada. Esse temor, aliás, é infundado: todo o projeto mecânico prevê o esforço extra causado pela sobrealimentação. Ademais, em outros países, essas tecnologias já existem há mais tempo e não houve problemas.

De qualquer modo, a Volkswagen já sente o efeito dos dogmas do mercado. É que as vendas do T-Cross estão concentradas na versão Highline, a única disponibilizada com a unidade 1.4 TSI. Ela é a top de linha e tem preço sugerido de R$ 109.990. As demais configurações, mesmo mais baratas, vendem menos. E olha que o propulsor 1.0 TSI que as equipa rende até 128 cv de potência e 20,4 kgfm de torque.

Como os carros movidos por essa nova geração de motores 1.0 ainda são recentes, é cedo para dizer se eles sofrerão maior desvalorização. A tendência é que, assim como ocorreu com a tecnologia das 16 válvulas, eles se tornem mais aceitos à medida em que forem se difundindo.

Fotos: Divulgação

Fonte: https://autopapo.com.br/noticia/desvalorizacao-carros-dogmas-mercado/